Começam a surgir propostas para evitar a retaliação do Brasil autorizada pela Organização Mundial do Comércio (OMC), por causa dos subsídios dados aos produtores norte-americanos de algodão. Há possibilidade, segundo especialistas, de formalizar um acordo para o desenvolvimento de pesquisas. Segundo eles, o objetivo é que os norte-americanos transfiram em recursos e tecnologias as pesquisas referentes ao setor algodoeiro. Já o CEO da Câmara Americana de Comércio (Amcham), Gabriel Rico, aponta outra solução possível girando em torno de compensações dentro do país norte-americano, como incentivo a vendas de produtos do Brasil. Está prevista para hoje a divulgação da lista com produtos que podem ser retaliados pelo governo brasileiro.
De acordo com analistas brasileiros, um dos setores que pode ser afetado é o de medicamentos, pois a retaliação envolve a criação de barreiras temporárias às importações. A lista com a relação de produtos que poderão ser alvos da reação brasileira será divulgada na próxima segunda-feira pelo Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic). A retaliação envolve cerca de US$ 830 milhões.
Em evento de posse dos novos membros do conselho da Amcham, na última sexta-feira, questionado pelo DCI sobre possíveis resoluções para evitar uma retaliação, o CEO da Amcham deu como exemplo o acordo feito entre os Estados Unidos e a Comunidade Européia no setor de direitos autorais. Segundo ele, a OMC tinha o concedido o direito da UE de retaliar o país norte-americano alegando, que esse restringia a entrada de livros europeus. "A solução encontrada foi dar um incentivo de vendas e divulgação aos livros europeus editados nos Estados Unidos. O resultado foi que os americanos acabaram conhecendo mais os autores europeus do que os do próprio país. Podemos buscar caminhos nesse campo", indicou.
"A lista de retaliação já está definida. Vamos adiar para a semana que vem. Isso foi para não causar nenhum constrangimento a secretária de Estado", afirmou o ministro do Mdic, Miguel Jorge, também na sexta-feira. "A negociação é sempre melhor. Somos pacientes. Depois da publicação da lista eles terão 30 dias, e aí sim, eles se manifestem", acrescentou.
Gabriel Rico comentou que há uma mobilização concreta dos Estados Unidos em negociar. A interpretação foi comprovada pelo novo embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, convidado de honra no evento da Amcham. "Como a secretária de Estado (norte-americana) Hillary Clinton, disse, será mandado um grupo de negociação com quatro membros do gabinete de (Barack) Obama (presidente norte-americano) para o Brasil".
Shannon afirmou, ainda, que não houve tom de ameaça dos Estados Unidos em contrarretaliar, se referindo a divulgação de que teria dito isso quando foi nomeado embaixador. "Foi algo dito pela imprensa", disparou.
"Evidente que é melhor negociar. O Brasil tem direito a retaliar, mas o que deve ser feito é a facilitação de entrada de produtos brasileiros nos Estados Unidos ou algo em torno disso, é a verdadeira resposta, mas se não tiver perspectiva de negociação talvez a retaliação aconteça", entende Rico. "Temos que pensar também que o Brasil é o maior de exportador de produtos agrícolas e alimentos do mundo e, por isso, os setores são os mais protegidos. A questão é como vamos enfrentar outras situações que fatalmente virão."
Setor privado
O diretor de diretor de assuntos corporativos da farmacêutica Merck Sharp & Dohme (MSD), João Sanches, afirmou, durante o evento da Amcham, que o setor privado brasileiro está empenhado a evitar novas retaliações e promover um ambiente de negociação para evitar a concretização da decisão tomada pela OMC aos subsídios agrícolas. "Retaliação não é a melhor solução, para qualquer tipo de controvérsia, principalmente em propriedade intelectual, porque tem implicação na saúde ou para que tudo que o governo quer fazer na área de inovação. É um direito caro ao Brasil", disse.
"Nós temos trabalhado localmente e com as nossas matrizes para pressionar o governo americano a fim de ter uma solução para isso [retaliação]", comentou Sanches. Para ele, decisões, como a da OMC, prejudicam o setor industrial, pois a cadeia produtiva é globalizada. "Nosso caso [setor farmacêutico] é 70% globalizado, por isso qualquer coisa pode afetar a eficiência disso."
Sanches disse que o Brasil ao fazer a retaliação no campo de Propriedade Intelectual passa uma "mensagem ruim com relação à inovação".
O diretor da MSD acredita que acordar é a melhor solução, mas "o Brasil deve mostrar aonde quer ir e ser suscetível a propostas". Para ele, uma das formas de fazer acordos é dentro do próprio setor afetado. "O Brasil precisa ter isso em mente para ser competitivo e não comercializar apenas commodities, apesar de ser forte nisso", ressaltou. |